Sobre

Como surgiu o Essência Mínima.

Desde que li O Pequeno Príncipe, a obra se tornou quase um manual de vida para mim. Leio uma vez por ano e reflito muito sobre todas as lições que a obra trás e identifico como aquilo fala comigo, como pode se conectar com a minha vida.

Com o tempo, percebi que havia algo mágico ali. O livro não mudava, mas eu mudava — e ele se adaptava às minhas mudanças, como um espelho gentil da alma.

Um ano atrás, eu me sentia completamente perdida no personagem (quem nunca?). Eu estava sentada, tomando um café e vendo o sol nascer da garagem da casa minha mãe, rodeada por plantas, em um horário da manhã que era certeiro que haveria silencio e eu poderia ouvir o cantar dos pássaros em meio ao barulho cotidiano da minha cidade. Me lembrei de uma frase, assim de súbito mesmo, sabe aqueles pensamentos intrusivos? Pois, então!

O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração.

Desafiando a mim mesma, fechei os olhos, respirei fundo e deixei a mente vagar…

Hoje, lembrando disso, vejo o quanto a minha mente precisava descansar, porque, quase que desesperadamente, ela começou a repassar cada fase da minha vida, primeiro desordenadamente (caos) e então, colocando em ordem cronológica os eventos. Senti uma descompressão. Uma paz.

Um vazio repentino me tomou e eu, naquela época tão desesperada por preencher todas as lacunas do meu tempo, da minha vida… deixei esse vazio existir. Não tive medo. Percebi o quanto eu estava exausta. Mas exausta do que exatamente?

Do personagem.

Eu não sei exatamente em que momento eu decidi que, não importava quantas coisas eu sonhava e desejava viver, eu precisava ouvir mais os outros para ter uma vida feliz. Não sei. Mas isso aconteceu.

Não sei em que momento frases que começavam com “você precisar ser isso” ou “você precisa fazer aquilo“, “você não pode gostar disso” ou “você não pode querer aquilo“, começaram a ganhar uma importância gigantesca na minha vida. Pensando bem, nada daquilo fazia sentido. Mas isso também aconteceu.

Então, ainda de olhos fechados, com uma intensidade que não sei medir, simplesmente porque eu não tentei medir, me vieram lembranças minhas.

Eu escrevendo em um diário.

Eu criando meu primeiro blog onde eu falava sobre meus sentimentos e sobre reflexões das leituras que eu havia feito.

Eu debaixo de uma coberta com a luz do celular ligada, iluminando um livro durante a madrugada, para não acordar minha irmã, que na época dividia quarto comigo.

Eu deitada na cama lendo, para não prestar a atenção no que estava acontecendo em casa.

Eu pedindo livros emprestados aos amigos na escola.

Eu na biblioteca da escola, e depois da universidade, quando eu deveria estar buscando livros de pesquisa para algum trabalho, mas tinha minha atenção desviada para livros de estórias.

Eu com vergonha, ou melhor, com medo, de falar que ler era tudo pra mim, que eu gostaria de falar sobre livros e ler o tempo todo pelo resto da minha vida. Que eu queria trabalhar e gastar todo o meu salário comprando os livros que estavam no meu carrinho de compras na internet e que, um Kindle, um aparelho para leitura de livros digitais, era a coisa que eu mais desejava ostentar.

Invés disso, eu me calei e busquei fazer de tudo para impressionar as pessoas que tinham grandes expectativas ao meu respeito e por eu ama-las muito, deduzi que deveria fazer as coisas que ouvia elas dizerem que são grandiosas, coisas que elas admiravam sobre outras pessoas. Não é culpa delas, claro. Meu desejo de orgulha-las que se confundiu e acabou pegando o caminho errado.

Em uma determinada idade me vi num ciclo de autosabotagem sem fim. Queria e não queria, ao mesmo tempo, as coisas que eu estava fazendo e buscando na minha vida. Sei que, sempre que olho para trás, me imagino correndo, correndo muito, sem saber para onde ir.

Um sentimento de urgência, de desespero, um alarme: FUJA! FUJA! FUJA RÁPIDO E DEPOIS? FUJA MAIS RÁPIDO!

E corri. Desistindo de tudo. De todos. De mim. Restando nada. Vazio absoluto.

Corri até parar ali, sentada, olhos fechados, numa manhã qualquer.

Pensei em abrir os olhos, quando me veio em mente aquela menina que amava escrever e ler. Eu não tinha mais nada a perder. Já tinha decepcionado todo mundo. Já tinha perdido e reconsquistado tudo. Então, como se aquela menininha me abraçasse, segurei firme a vontade de recuperar em mim, a minha essência.

Quando abri os olhos, o sol já tinha nascido, os sons da cidade abafava o canto dos pássaros, o café tinha esfriado e eu me levantei. Pensei comigo: vamos, vamos fazer o que a gente quiser.

Levou um ano para criar coragem e aprender o que eu precisava para lançar o blog. Que para mim, pessoalmente, é um relançamento. Mais madura, esse hobbie ganhou novas ideias.

E em determinado ponto, eu travei. Medo e vergonha novamente.

Se desisti de tudo que me disseram que eu precisava fazer para minha vida dar certo, eu precisava estar pronta para enfrentar possíveis alegações de que minha vida deu muito errado, mesmo que eu não sentisse isso.

E o que esperar de uma menina que sempre silenciou suas paixões? Achei natural. E resolvi me dar tempo e paciência. Até que um dia me deparei com uma escritora declamando um trecho do seu próprio livro no Instagram:

“Dar certo é (…) não trair o seu lugar no mundo – e todo lugar no mundo é grande por essência. (…)”

Agora estou aqui, criando esse espaço. E me sinto completamente em paz e segura de que nada mais importa além da minha alegria em estar sendo eu mesma.

Essência Mínima é esse lugar.
Não um recomeço, mas um reencontro.
Aqui, eu volto a ser quem eu sempre soube que sou.
E pela primeira vez, isso é mais do que suficiente.
Isso é tudo.

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